Fontes.

O bando de sanhaços-azuis estava acostumado com as frutas de Cecília. Os pássaros espalhavam-se por toda a extensão do sítio. Dependendo da estação encontravam frutas variadas: amora; pitanga; mamão, gabiroba, goiaba; banana. No momento a principal refeição do dia era proporcionada por Cecília, a mulher do caseiro fazia questão de colocar sobre um muro bananas cortadas ao meio, alguns pedaços grandes de mamão, abacates em rodelas e goiabas quase sempre bichadas. Cecília parecia uma pessoa mais satisfeita diante da visão dos trinta, ou mais, pássaros azuis comendo suas frutas com muito entusiasmo. Aves grandes e vigorosas, os maiores passavam dos…


O grito, 1963, Eduardo Kingman. Fonte.

Eu fui pra casa em silêncio.

No meu quarto eu quebrei o nosso quadro

E joguei todos os seus presentes no lixo.

Onde eu errei?

Quando eu parei de ser “o suficiente” pra você?

Quando o meu corpo deixou de ser o seu templo?

Quando o nosso amor passou a ser desgastante?

Quarto rosa,

Noites no escuro,

Chorando

E tentando manter a fé para conseguir acordar no outro dia.

A morte da minha alma grita.

Nenhuma floresta,

Nenhum refúgio,

Nenhum restaurante.

Eu tô sozinho

E você anda por aí destruindo o nosso passado

E quebrando cada milímietro do meu coração.


Fonte.

Foi numa noite fria de maio a primeira vez que entramos no Bar baridade. Tínhamos acabado de chegar em Caconde, precisávamos comer, ou o nosso estômago faria as malas e desistiria de nós, partindo em busca de um organismo mais atencioso.

Entramos às gargalhadas neste ambiente de nome tão criativo. Para nosso infortúnio, era um bar bem meio intelectual meio de esquerda, como aquele da crônica do Prata, saca!?

Sentamos em duas mesas calçadas de um papelão manchado por um respingado mijo velho.

Logo quando sentamos, pedimos o único prato que não nos causaria diarreia dali vinte minutos: x-burguer com…


Pintura de Zdzislaw Beksinski. Fonte.

Há um guerreiro errante que segue um ídolo arruinado. Por anos sem conta busca seus escombros na terra devastada pela fúria de um sol seco e brisas brilhantes. Se esperar colar os pedaços ou absorver o que quer que reste da força do falso mito, nunca se descobriu. O passado, presente e futuro são conceitos cutâneos para andarilhos. Ainda mais um, ou vários, que avistaram a espada distante, acima de tudo e todos, mas sentiram o beijo frio. O toque de que a mitologia torpe pregava. Aquele que seu adorador salivava. As línguas de aço que regem.

O peregrino nota…


Fonte.

Decidiu sair. Quando o tumulto do café da manhã cessou, abriu o guarda-roupa em busca de algo para vestir. Nunca precisou realmente escolher. Sempre achara as peças dispostas em cima da cama. Pegou a velha calça de um marrom escuro e a camisa azul. Já havia vestido essas peças outras vezes, então deveriam funcionar. Calçou — não sem dificuldade — o sapato social preto devidamente engraxado. Colocou o boné azul que sempre o acompanhava para evitar o sol. Não disse nada a ninguém e saiu. Já fazia quase um mês. Ele precisava respirar um ar que não carregasse tanto pesar…


Fonte.

Num sei contar as hora. Nunca aprendi. Também nunca me ensinaram não. Mas sei que tá perto. Sei porque os intestino avisa. É sempre a merma hora — imbora faça ideia não. Sei que tem sol quando ela vem. Fico aqui, quietinho, então ela chega. O cheiro vem antes dela dobrá esquina. Daí me levanto. Fico todo agitado. Bobo. Me jogo no chão. Deito, rolo. A boca espuma, como agora. Então me chutam as costela. Dizendo na minha cara que tô doente. Dizendo pra eu morrer notro lugar. Daí eu vô. Morrer notro lugar. Daí as mosca vem comigo. Que…


Capa do livro Carnaval no Abismo, de Gabrielle Dal Molin.

RUAS DA MEMÓRIA

silencio os estilhaços

das pequenas tragédias

semeando delícias

todos os dias

os homens criam apocalipses

enquanto procuro os parques da minha infância

BR

os vendedores de água e de qualquer comida que se mastiga

pra não morrer de fome

antes de chegar em casa

apostam corrida na BR

e um gatinho branco malhado

de marrom e preto se esgueira

pela cerca do supermercado

procura qualquer comida

que se mastiga pra não morrer de fome antes de viver mais

ou de morrer atropelado

na próxima esquina em que terão outros vendedores de outras coisas

que se mastigam mas não deveriam

estar ali…


Robin M. Eames. Web: Fonte.

Vamos começar dizendo que eu bem que tentei. Eu tentei traduzir mais de um poema, eu tentei arduamente. Mas não deu.

Robin M. Eames é, para mim, umx poeta simplesmente sensacional e, como pouquíssimx conhecidx no nosso país, quis muito trazer sua voz para esses lados do oceano. Mas existe algo nelx que me trava. Não consigo mergulhar na sua poética sem sair de lá meio bamba e, por isso, um tanto sem palavras.

Um poema de cada vez. Este é o primeiro.

Robin M. Eames é poeta, artista e historiadorx. É cadeirante e autista, pelo que abraça muitas dessas…


Fonte.

Minha impressão desde criança das libélulas era a de que elas gostavam de cagar na água, por isso limpavam tanto a bunda na água.

Adorava seus formatos. Eu queria voar para libélula, ter o corpo fininho assim, como aquele aviãozinho de papel que aprendi a fazer, despretensiosamente, durante uma tediosa aula sobre geopolítica na sétima série.

Guri que era, fantasiava libélulas para enfeite de docinho de coco de festa de aniversário daqueles tempos. Eles eram de papel crepom, embabadado até o chão.

Libélulas nunca têm pressa, estão sempre em vantagem com o Senhor Tempo.

Os adultos já se esqueceram o…


Pintura de Harmonia Rosales. Fonte.

O espelho devora a face

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Liquefazendo-se

ante a prata

ao que ladra

lá fora o medo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Evanesceu-se

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

ao contemplar-se

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

como não devias

Perdeu a face

ao olhar-se

por vias vazias.

Sangue santo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

I

Lua ondula no céu

Disco branquejante

Eu ardo arquejante

Esperança ao léu

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

o sangue o sangue o sangue

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Mente vazia

Respira

Sigo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A lua no céu

se derrama

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

II

Pele escaldante

O ar vaza dos pulmões e de repente

um vento de chuva

cai e te cura.

Revista Tamarina Literária

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store